A escola

Outubro 10, 2008

É um feixe extraordinário de relações, um comboio, já que é uma coisa através da qual se passa, é uma coisa igualmente pela qual se pode passar de uma ponta à outra e depois é igualmente uma coisa que passa, diz Michel Foucault, em «Dos Espaços Outros», conferência proferida no Cercle d’Études Architectiurales em 1967. Não é isto também a escola? Atravessar a escola de uma ponta a outra, talvez o faça duas vezes por semana o jardineiro, ou tu que lá voltas anos depois e notas que afinal é muito mais pequena do que pensavas. Mas a escola coisa através da qual se passa é a escola ela mesma, bridge over troubled water, com os alunos a entrarem por um lado e a sairem, cinco ou seis anos mais tarde, por outro. Enquanto lá estão vão passando de ano. Mas enquanto estão lá dentro são a água, nunca muda.  Os professores estão na ponte a olhar para baixo, às vezes há um que cai e é levado pela corrente. Raoul Vaneigem, no seu «Aviso aos alunos do básico e do secundário», incita os alunos a ocuparem a escola, como se esta fosse um prédio devoluto, que o proprietário prefere anbandonar à degradação porque o espaço vazio é lucrativo. No entanto, a escola nunca é um espaço vazio. Está sempre ocupada pelos alunos. Mas é como se os proprietários os quisessem pôr dali a andar, como se fossem ocupas, ou pelo contrário, ninguém sai daqui enquanto não vierem as autoridades. É como se o trabalho dos professores fosse o de varrer os alunos da escola , e nunca reparassem que estão sempre a entrar mais.

E a escola não é um espaço. É um acontecimento. É tambémuma coisa que passa. Um dia acordamos de manhã e já passou. Foi um comboio.

o telemóvel

Outubro 7, 2008

Silêncio entre dois barulhos é ainda o telemóvel entre a mão da professora e a mão da aluna. Lembram-se dessa história? que foi filmada por um aluno? ainda hoje se pode ver no youtube. A professora a puxar de um lado e a aluna a puxar de outro. Como se aquilo fosse uma corda. Ou uma almofada. Ou uma espingarda. Pergunto-me: Estaria nesse momento o telemóvel ligado? Quer dizer, com alguém do outro lado a dizer «estou? estou?», ou simplesmente a ouvir tudo? A ouvir tudo e horas mais tarde a ver tudo, no youtube. Se estava desligado, então era o silêncio. Se estava ligado mas o rapaz calado (e porque penso logo que era um rapaz?) então mais silêncio é. porque é uma coisa que pode falar e está calada. é toda esta coisa muda. calada. A turma toda em alvoroço, em movimento, aos gritos e o telemóvel calado mas aberto para o mundo. E o barulho a puxar um de cada lado. Os dois barulhos a disputarem o silêncio.

Happy Days, aquela peça do Samuel Beckett com a mulher no primeiro acto enterrada até à cintura e no segundo acto enterrada até ao pescoço. Beckett disse que a chave de Happy Days era a pausa. Dito em inglês fica melhor «The keyword of the play». A palavra-passe. A palavra «pausa». A pausa é o tal silêncio entre dois barulhos de que falava Manoel de Oliveira. Aparece no texto 612 vezes. E na versão francesa tem metade da duração que na versão inglesa. Ou seja, Samuel Becket traduziu o tempo para francês. Há uma tradução nova de Happy Days, levada genialmente a cabo pelo músico João Paulo Esteves da Silva, o autor do disco «Memórias de Quem». Esta tradução Vais estar algures em cena em Novembro não sei bem quando nem onde, encenada pelo Bruno Bravo, com Raquel Dias e Gonçalo Amorim. Como será a pausa traduzida para português?