Estante

Agosto 15, 2008

Vamos supor. Que o tempo se desenrola da esquerda para a direita. Como a escrita. Como os livros que colocamos na estante por ordem alfabética de autor. Mais do que isso resolvi ainda misturar os temas, nestes dias de agosto, juntar a filosofia e a política e a religião com a literatura. Deu coisas engraçadas. Por ter uma biblioteca pequena, claro, senão nunca teria  António Quadros encostado a Proudhon. Quem diria. O que é a propriedade,  é o roubo, e na minha estante o Proudhon está a dizê-lo ao  Quadros que, por ironia do destino, recenseou este mesmo livro para a Fundação Calouste Gulbenkian, calculo que nos anos 60, dizendo que «não pode ser divulgado nas bibliotecas itinerantes pelo seu carácter subversivo». Coitado do António Quadros, aquele mesmo que escrevia sobre o sentido e o destino de Portugal, acabou por ficar entalado entre o pai António Ferro, e a filha Rita Ferro, ambos célebres pelas suas razões mais ou menos espampanantes, e em minha casa, entalado entre o Proudhon e o Teixeira de Queirós. Deve consolar-se nas páginas bucólicas deste segundo, que o outro só pode ser comichão, segredando-lhe a toda a hora ao ouvido que a propriedade é o roubo, tal como a escravatura é o assassínio. O pior é que nem Proudhon nem António Quadros suspeitariam (nem o conseguem ver, entaladinhos que estão na minha estante) que a escravatura afinal nem estava resolvida, parece que até volta, no sentido contrário ao da escrita, ao dos livros na estante, ao do tempo. Quanto mais dizer-se que a propriedade é roubo, o outro é que estava certo (o outro, António Quadros), quando escreveu que «o ímpeto polémico de Proudhon leva-o a defender posições extremistas quanto à religião, à filosofia, à cultura, à sociedade e à política, que não podem ser lidos sem reservas e apenas por adultos de sólida formação.»

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