Estante

Agosto 20, 2008

Olha, enganei-me. Pus o Proudhon à frente do Proust e do Púchkin. Proudhon, peço desculpa, por ordem alfabética, fica atrás de Proust, sempre ficou. Por isso é o Púchkin que o António Quadros deve ter à coca na minha estante. Já não tem António Quadros que se chatear com o Proudhon a teimar que a propriedade é roubo. Só Puchkin, dizendo «Sou o bandido. Sou dono de mim mesmo», que não anda muito longe da premissa de Proudhon. Se ele é dono dele mesmo logo é ladrão. Lógico. Propriedade é roubo. Queremos todos ser ladrões, senhor Quadros, malandros e bonitos ao mesmo tempo. Uns, ladrões de si mesmos (que têm esses?), outros de outros, e outros ainda de coisas.

Estante

Agosto 15, 2008

Vamos supor. Que o tempo se desenrola da esquerda para a direita. Como a escrita. Como os livros que colocamos na estante por ordem alfabética de autor. Mais do que isso resolvi ainda misturar os temas, nestes dias de agosto, juntar a filosofia e a política e a religião com a literatura. Deu coisas engraçadas. Por ter uma biblioteca pequena, claro, senão nunca teria  António Quadros encostado a Proudhon. Quem diria. O que é a propriedade,  é o roubo, e na minha estante o Proudhon está a dizê-lo ao  Quadros que, por ironia do destino, recenseou este mesmo livro para a Fundação Calouste Gulbenkian, calculo que nos anos 60, dizendo que «não pode ser divulgado nas bibliotecas itinerantes pelo seu carácter subversivo». Coitado do António Quadros, aquele mesmo que escrevia sobre o sentido e o destino de Portugal, acabou por ficar entalado entre o pai António Ferro, e a filha Rita Ferro, ambos célebres pelas suas razões mais ou menos espampanantes, e em minha casa, entalado entre o Proudhon e o Teixeira de Queirós. Deve consolar-se nas páginas bucólicas deste segundo, que o outro só pode ser comichão, segredando-lhe a toda a hora ao ouvido que a propriedade é o roubo, tal como a escravatura é o assassínio. O pior é que nem Proudhon nem António Quadros suspeitariam (nem o conseguem ver, entaladinhos que estão na minha estante) que a escravatura afinal nem estava resolvida, parece que até volta, no sentido contrário ao da escrita, ao dos livros na estante, ao do tempo. Quanto mais dizer-se que a propriedade é roubo, o outro é que estava certo (o outro, António Quadros), quando escreveu que «o ímpeto polémico de Proudhon leva-o a defender posições extremistas quanto à religião, à filosofia, à cultura, à sociedade e à política, que não podem ser lidos sem reservas e apenas por adultos de sólida formação.»

entre dois barulhos

Agosto 15, 2008

Fátima Campos Ferreira, de microfone na lapela, a perguntar ao quase quase centenário Manoel de Oliveira, a perguntar não, a dizer, a afirmar, a dizer, O mestre trabalha muito o silêncio nos seus filmes. Só então sim, a perguntar, O silêncio é para si muito importante?

- Um silêncio está entre dois barulhos, senão é a morte, responde o perguntado, de microfone em punho porque não tinha de lapela.

Se um barulho cede à frente, digo eu agora, entorna-se o silêncio para cima da morte, se cede atrás, entorna-se o silêncio para cima da memória.  Isto se o tempo for uma linha. Sem os barulhos não há linha. Banho de silêncio.

Entre dois barulhos toda esta coisa muda, porque nada morre, tudo muda. Ou então, tudo morre precisamente porque tudo muda.

Seja como for, vejam bem, toda esta coisa muda, toda esta coisa muda, entre dois barulhos.