o telemóvel
Outubro 7, 2008
Silêncio entre dois barulhos é ainda o telemóvel entre a mão da professora e a mão da aluna. Lembram-se dessa história? que foi filmada por um aluno? ainda hoje se pode ver no youtube. A professora a puxar de um lado e a aluna a puxar de outro. Como se aquilo fosse uma corda. Ou uma almofada. Ou uma espingarda. Pergunto-me: Estaria nesse momento o telemóvel ligado? Quer dizer, com alguém do outro lado a dizer «estou? estou?», ou simplesmente a ouvir tudo? A ouvir tudo e horas mais tarde a ver tudo, no youtube. Se estava desligado, então era o silêncio. Se estava ligado mas o rapaz calado (e porque penso logo que era um rapaz?) então mais silêncio é. porque é uma coisa que pode falar e está calada. é toda esta coisa muda. calada. A turma toda em alvoroço, em movimento, aos gritos e o telemóvel calado mas aberto para o mundo. E o barulho a puxar um de cada lado. Os dois barulhos a disputarem o silêncio.
Estante
Agosto 20, 2008
Olha, enganei-me. Pus o Proudhon à frente do Proust e do Púchkin. Proudhon, peço desculpa, por ordem alfabética, fica atrás de Proust, sempre ficou. Por isso é o Púchkin que o António Quadros deve ter à coca na minha estante. Já não tem António Quadros que se chatear com o Proudhon a teimar que a propriedade é roubo. Só Puchkin, dizendo «Sou o bandido. Sou dono de mim mesmo», que não anda muito longe da premissa de Proudhon. Se ele é dono dele mesmo logo é ladrão. Lógico. Propriedade é roubo. Queremos todos ser ladrões, senhor Quadros, malandros e bonitos ao mesmo tempo. Uns, ladrões de si mesmos (que têm esses?), outros de outros, e outros ainda de coisas.
Estante
Agosto 15, 2008
Vamos supor. Que o tempo se desenrola da esquerda para a direita. Como a escrita. Como os livros que colocamos na estante por ordem alfabética de autor. Mais do que isso resolvi ainda misturar os temas, nestes dias de agosto, juntar a filosofia e a política e a religião com a literatura. Deu coisas engraçadas. Por ter uma biblioteca pequena, claro, senão nunca teria António Quadros encostado a Proudhon. Quem diria. O que é a propriedade, é o roubo, e na minha estante o Proudhon está a dizê-lo ao Quadros que, por ironia do destino, recenseou este mesmo livro para a Fundação Calouste Gulbenkian, calculo que nos anos 60, dizendo que «não pode ser divulgado nas bibliotecas itinerantes pelo seu carácter subversivo». Coita
do do António Quadros, aquele mesmo que escrevia sobre o sentido e o destino de Portugal, acabou por ficar entalado entre o pai António Ferro, e a filha Rita Ferro, ambos célebres pelas suas razões mais ou menos espampanantes, e em minha casa, entalado entre o Proudhon e o Teixeira de Queirós. Deve consolar-se nas páginas bucólicas deste segundo, que o outro só pode ser comichão, segredando-lhe a toda a hora ao ouvido que a propriedade é o roubo, tal como a escravatura é o assassínio. O pior é que nem Proudhon nem António Quadros suspeitariam (nem o conseguem ver, entaladinhos que estão na minha estante) que a escravatura afinal nem estava resolvida, parece que até volta, no sentido contrário ao da escrita, ao dos livros na estante, ao do tempo. Quanto mais dizer-se que a propriedade é roubo, o outro é que estava certo (o outro, António Quadros), quando escreveu que «o ímpeto polémico de Proudhon leva-o a defender posições extremistas quanto à religião, à filosofia, à cultura, à sociedade e à política, que não podem ser lidos sem reservas e apenas por adultos de sólida formação.»